O Panteísmo

 



Por 'Abdu'l-Bahá

Pergunta – Como entendem os teosofistas e os sufis a questão do panteísmo?? (1) Que significa, e até que ponto se aproxima da verdade?

Resposta – Saibam que o assunto do panteísmo é antigo; não é crença restrita aos teosofistas e sufis, pois alguns sábios da Grécia a tinham, assim como disse Aristóteles: “A simples verdade são todas as coisas, mas não é nenhuma delas.” Neste caso, “simples” é o contrário de “composto”; é a Realidade isolada, pura e sagrada além da composição e divisão, e que se resolve em inúmeras formas. Portanto, a Existência Real são todas as coisas, mas não é nenhuma das coisas.

Numa palavra, os que acreditam no panteísmo acham a Existência Real comparável ao mar, e os seres às Suas ondas. Estas ondas, ou sejam os seres, são inúmeras formas daquela Existência Real, e assim a Santa Realidade é o Mar da Preexistência, (1) sendo as incontáveis formas das criaturas as ondas que surgem.

De modo semelhante, comparam essa teoria à verdadeira unidade e à infinidade dos números: a verdadeira unidade reflete-se nos graus dos números infinitos, pois os números são a repetição da verdadeira unidade. Assim, o número dois é a repetição de um, e é o mesmo no caso dos outros números.

Uma de suas provas é esta: todos os seres são conhecidos de Deus, e o conhecimento sem coisas conhecidas não existe, porque o conhecimento se relaciona com aquilo que existe e não com a inexistência. A pura inexistência não pode ter especificação ou individualização nos graus do conhecimento. A realidade dos seres, portanto, sendo conhecida por Deus, o Altíssimo, tem a existência que o conhecimento tem, (2) desde que possua a forma do Conhecimento Divino; e é preexistente, assim como o Conhecimento Divino é preexistente. Logo, as coisas conhecidas são igualmente preexistentes e as individualizações e especificações dos seres, sendo conhecimentos preexistentes da Essência da Unidade, são o próprio Conhecimento Divino; porque a realidade da Essência da Unidade, a do conhecimento e as das coisas conhecidas, têm uma unidade absoluta que é real e estabelecida. Se assim não fosse, a Essência da Unidade se tornaria o lugar de múltiplos fenômenos, pressupondo isto a multiplicidade de preexistências, o que seria absurdo.

Está assim provado que as coisas conhecidas constituem o próprio conhecimento, e este a própria Essência; quer isso dizer: o Conhecedor, o conhecimento e as coisas conhecidas são uma simples realidade. E se alguém imaginasse qualquer coisa fora disso, seria necessário admitir a multiplicidade de preexistências e o encadeamento; (1) e preexistências vêm a se tornar inúmeras. Já que a individualização e a especificação dos seres no conhecimento de Deus são a própria Essência da Unidade, não havendo entre elas diferenças alguma, há apenas uma verdadeira Unidade, sendo que todas as coisas conhecidas se difundem e incluem na realidade da Essência única. Quer isso dizer: segundo o modo da simplicidade e da unidade, constituem elas o conhecimento de Deus, o Altíssimo, e a Essência da Realidade. Quando Deus manifestou Sua glória, essas individualizações e especificações dos seres que tinham uma existência virtual, isto é, eram uma forma do Conhecimento Divino, tiveram sua existência substancializada no mundo exterior; e esta Existência Real resolveu-se a Si Própria em infinitas formas. Tal é a base de seu argumento.

Os teosofistas e os sufis dividem-se em dois ramos. Um destes, composto pela maioria, acredita no panteísmo simplesmente em espírito de imitação, sem compreender o que queriam dizer seus sábios de renome; pois a generalidade dos sufis acredita que o significado Ser é existência geral, tomada substantivamente, sendo compreendida pelo raciocínio, pela inteligência; isto é, que o homem a compreende. Em vez disso, a existência geral é um dos acidentes que penetram a realidade dos seres, e as qualidades destes são a essência. Esta existência acidental, dependente dos seres, é como outras propriedades das coisas que elas dependem. É acidente entre acidentes, e sem dúvida o que é a essência é superior àquilo que é o acidente. Pois a essência é a origem, e o acidente a consequência; a essência depende de si própria, e o acidente necessita de outra coisa, ou seja, de uma essência de que depender. Segundo seu argumento, Deus seria a consequência da criatura, teria necessidade dela, e a criatura seria independente Dele.

Por exemplo, cada vez que os elementos isolados se combinam segundo o sistema divino universal, um ser entre os seres vem ao mundo. Isto é, ao combinarem-se certos elementos, uma existência vegetal é produzida; quando outros se combinam, formam um animal; e ainda outros, as várias criaturas. Assim a existência das coisas é conseqüência de sua realidade: como seria possível que essa existência – um acidente entre acidentes, e necessitando de uma essência, de que depender – fosse a Essência Preexistente, Autor de todas as coisas?

Opinam, no entanto, os sábios iniciados entre os teosofistas e sufis que estudaram o assunto, haver duas categorias de existência. Uma é a geral, a compreendida pela inteligência humana, isto é, um fenômeno, um acidente entre acidentes; e a realidade das coisas é a essência. O panteísmo, porém, não é aplicável a esta existência geral, imaginária, mas somente à Existência Verdadeira, livre e santificada acima de qualquer outra interpretação. É por Seu intermédio que existem todas as coisas; é a Unidade através da qual todas as coisas vieram ao mundo, tais como matéria, energia e essa existência geral compreendida pela mente humana. Eis a verdade da questão segundo os teosofistas e sufis.

Enfim, quanto à teoria de que todas as coisas existem em virtude da Unidade, todos estão de acordo – isto é, Profetas e filósofos. Mas há uma diferença entre eles. Dizem os Profetas: o Conhecimento Divino não necessita da existência de seres, enquanto o conhecimento da criatura pressupõe a existência de coisas conhecidas; se o Conhecimento Divino tivesse necessidade de qualquer outra coisa, seria o conhecimento da criatura e não o de Deus. O preexistente é diferente do fenomenal, e este contrário àquele; o que atribuímos à criatura, ou sejam as necessidades dos seres contingentes, negamos para Deus, pois a pureza, a santificação de imperfeições, é uma de Suas propriedades necessárias. Assim, no fenomenal, vemos ignorância, enquanto que no Preexistente verificamos conhecimento; no fenomenal vemos fraqueza, no Preexistente, poder; no fenomenal percebemos pobreza, no Preexistente atestamos riqueza. O fenomenal é, pois, a fonte das imperfeições, e o Preexistente a soma das perfeições. O conhecimento fenomenal exige coisas conhecidas; o Preexistente é independente da existência destas. Não há, portanto, preexistência de especificação e individualização de seres que são as coisas conhecidas por Deus, o Altíssimo; nem podem Seus atributos perfeitos, divinos, ser compreendidos pela inteligência, de modo que nós possamos decidir se o Conhecimento Divino tem ou não, necessidade das coisas conhecidas.

Vimos, pois, o argumento principal dos sufis, e se desejássemos mencionar todas as suas provas e explicar suas respostas, isto levaria muito tempo. A prova decisiva, o argumento claro, dos sufis e teosofistas – pelo menos de seus sábios, foi o que vimos.

A questão, porém, da Existência Verdadeira em virtude da qual existem todas as coisas – isto é, a realidade da Essência da Unidade através da qual todas as criaturas vieram ao mundo – isto é admitido por todos. A diferença reside naquilo que dizem os sufis: “A realidade das coisas é a manifestação da Unidade Verdadeira”, enquanto os Profetas afirmam que “essa realidade emana da Unidade Verdadeira”, e grande é esta diferença, entre manifestar e emanar. Aparecimento por manifestação significa que uma coisa simples, se mostra em inúmeras formas. A semente, por exemplo, é coisa simples, dotada das perfeições vegetativas, que ela manifesta numa infinidade de formas, resolvendo-se a si própria em ramos, folhas, flores e frutos. Isto é aparecimento por manifestação. No aparecimento por emanação, a Unidade Verdadeira permanece no sublime estado de Sua santidade e a existência das criaturas Dela emana – não é por Ela manifestada. Tomemos o sol como exemplo: dele emana a luz que se irradia sobre todas as criaturas, mas o sol continua na elevada condição de sua santidade: não desce, não se resolve a si próprio em formas luminosas; não aparece na substância das coisas mediante a especificação e individualização destas; o preexistente não se torna o fenomenal; a riqueza independente não se converte em pobreza encadeada; a pura perfeição não se transforma na imperfeição absoluta.

Recapitulando: os sufis admitem Deus e a criatura, e dizem que Deus se resolve a Si Próprio nas infinitas formas das criaturas, manifestando-se assim como o mar se manifesta nas inúmeras formas das ondas, as quais, embora sejam fenomenais, imperfeitas, são a mesma coisa do Mar Preexistente, ainda que este seja a soma de todas as perfeições divinas. Os Profetas, ao contrário, crêem que há o mundo de Deus, o mundo do Reino e o mundo da criação – três coisas. A primeira emanação de Deus é a graça do Reino, que emana e se reflete na realidade das criaturas, assim como a luz que emana do sol e resplandece nas criaturas; e esta graça, que corresponde à luz, se reflete em inúmeras formas na realidade de todas as coisas, especificando e individualizando-se segundo a capacidade, o merecimento e o valor intrínseco das coisas. Mas a afirmação dos sufis requer a descida da Riqueza Independente para o grau da pobreza; exige que o Preexistente se limite às formas fenomenais, e que o Poder Puro se restrinja ao estado da fraqueza, de acordo com as limitações dos seres contingentes. É este um erro evidente. Observai que a realidade do homem – de todas as criaturas a mais nobre – não desce à realidade do animal, e que a essência deste, dotado dos poderes de sensação, tampouco se reduz ao grau do vegetal, nem a realidade do vegetal, ou seja o poder do crescimento, se abaixa à realidade do mineral.

Numa palavra, a realidade superior não desce, não se abaixa às condições inferiores. Como seria possível, pois, a Realidade Universal de Deus, livre que é de toda descrição e qualificação, e não obstante Sua santidade e pureza absoluta, resolver-se a Si Própria nas formas das realidades das criaturas, as quais são fontes de imperfeições? É pura imaginação, inteiramente inconcebível.

Pelo contrário, essa Santa Essência é a soma das perfeições divinas, enquanto que todas as criaturas são favorecidas pela graça do resplendor através de Sua emanação, recebendo a luz, a perfeição e a beleza de Seu Reino, assim como toda as criaturas terrestres obtêm a graça da luz dos raios do sol, embora este não desça, não se abaixe às realidades favorecidas dos seres terrestres.

Em vista de ser tarde a hora, não há tempo para se explicar mais...

 

Notas:

1.       Embora, como explica 'Abdu'l-Bahá, a ideia seja de origem antiga, sua história no pensamento islâmico começa com Ibnu'l-'Arabí (1165-1240). “Ibnu'l-'Arabí é um monista completo, e o nome dado à sua doutrina (vadatu'l-vujúd, a unidade da existência) a descreve com justiça. Ele sustenta que todas as coisas preexistem como ideias no conhecimento de Deus, de onde emanam e para onde finalmente retornam”. RA Nicholson, “Misticismo”, O Legado do Islam, ed. Sir Thomas Arnold e Alfred Guillaume (Oxford University Press, 1931), p. 224

2.       Cf. Plotino, Ennead 5.2.1: “O Um é todas as coisas e não uma única delas…” (trad. de Armstrong); e Platão, Parmênides 160b2-3: “Assim, se há um Um, o Um é tanto todas as coisas quanto nada, igualmente com referência a si mesmo e aos Outros” (tradução de Cornford). Na tradição dos filósofos islâmicos, alguns dos escritos de Plotino são atribuídos a Aristóteles.

A Vida Extraterrestre: Estamos Cada Vez Mais Próximos de "Descobrir" Vida em Outros Mundos



Por Guilherme Bitencourt


Recordo-me da menção no Alcorão e também nas Epístolas Reveladas por Bahá'u'lláh, como a Lawh-I-Ahmad (Epístola de Ahmad), da palavra 'alam (عالم) em árabe, traduzida tanto como mundo ou universo. A palavra em árabe, tanto no Alcorão como nas Escrituras Baha'ís em árabe, é semelhante à palavra olam (עולם‎) em hebraico, de acordo com a Torá ou Bíblia Hebraica.

A palavra 'alam no plural é alamin, tal como aparece no final da Epístola de Ahmad onde diz, "alhamdulillah rabbil 'alamin" (الْحَمْدُ لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ), semelhante ao versículo de Abertura do Alcorão, onde logo no começo diz as mesmas palavras que significam: "Louvores a Deus, Senhor de todos os mundos". Repare que a menção não é 'alam, mas alamin (عالمين) no plural.

Mencionar 'mundos' no plural não pode significar algo em relação à vida extraterrestre, com seres vivendo em outros mundos, habitando estrelas e vivendo até mesmo em galáxias distantes da nossa?

Vejamos o seguinte dito de Imam Ali (600-661 d.c) encontrado no Satinat ul-Bihar, vol. 3, página 574:

“Essas estrelas que estão nos céus têm cidades, muito parecidas com as cidades da Terra; cada uma de suas cidades está conectada por uma coluna de luz com outras cidades.”

Os extraterrestres não aparecem apenas uma vez na tradição Islâmica xiita, mas o assunto se repete em um diálogo do 6º Imam xiita, Jafar As-Sadiq (669-765 d.c), com um seguidor chamado Jaber em Maghz-e Motafakker Jehan Shi'ah, Kawkab 'Ali Mirza, página 134:

Jaber perguntou: "Estão vossos seres humanos nas estrelas? Vós acabastes de dizer que cada estrela é uma coleção de corpos celestes."

Imam Jafar Sadeq respondeu: "Eu não posso dizer que há seres humanos em outros mundos, mas posso dizer que existem seres vivos, a quem não podemos ver por causa da grande distância entre vós."

Os Santos Imames disseram claramente que existem civilizações em outros planetas, mas como muitos ahadith não transmitem determinada segurança, devido às disputas políticas e religiosas entre as seitas do passado, fiquei muito tempo em dúvida sobre sua autenticidade.

No entanto, Bahá'u'lláh trouxe-me a certeza Revelada por Deus, através de Sua caneta imaculada e para toda a humanidade nessa época, respondendo a essa questão sem deixar um rastro de dúvidas:

“Tú me perguntaste sobre a natureza das esferas celestiais. Afim de se compreender sua natureza, seria mister inquirir o significado das alusões que os Livros de antanho fazem aos céus e às esferas celestiais, e descobrir o caráter de sua relação a este mundo físico e a influência que sobre eles exercem. Todo coração maravilha-se diante de tão deslumbrante tema, e todas mentes se confundem, por causa dos seus mistérios. Somente Deus pode penetrar sua significação. Os homens eruditos que calcularam em alguns milhares de anos a vida desta terra, deixaram de considerar, por todo o longo período de sua observação, tanto o número com a idade dos demais planetas. Considera, além disso, as múltiplas divergências resultantes das teorias expostas por esses homens. Sabe tu que cada estrela fixa tem seus planetas, e cada planeta suas próprias criaturas, cujo número nenhum homem pode computar.” [Seleção dos Escritos de Baha’u’lláh, LXXXII]

Bahá'u'lláh confirma o que foi dito no hadith de Imam Ali sobre os mundos, tão vastos que só Deus sabe o número exato deles, e quanto mais a ciência avança, cada vez mais próximos estamos de provar a existência de vida inteligente fora do nosso planeta.

De acordo com o diretor da iniciativa científica Breakthrough Listen, da Universidade da Califórnia, Andrew Siemion, estamos vivendo um momento ímpar na exploração do universo. Em uma entrevista à BBC, ele revelou que estamos prestes a empreender a pesquisa mais abrangente de todo o céu em busca de inteligência extraterrestre, uma busca que nunca antes foi tão promissora. Quando olhamos para o céu noturno, nos perguntamos se há alguém lá fora. Agora, graças aos avanços científicos, temos a capacidade de finalmente responder a essa pergunta. Uma descoberta nessa área seria mais do que uma conquista científica; poderia ser considerada uma das maiores revelações na história da humanidade.

Essa empolgante jornada pelo cosmos, em busca de respostas sobre a vida fora do nosso planeta, não está dissociada das crenças expressas nas Escrituras Baha'ís. Essa Fé, que destaca a unidade da humanidade e a importância da busca pelo conhecimento e da harmonia entre a ciência e a espiritualidade, permite-nos explorar com curiosidade e esperança as maravilhas que o universo pode nos revelar. Nas Escrituras Baha'ís, há indicações de que as diversas criações de Deus podem estar espalhadas por mundos além do nosso, ampliando nossa compreensão do propósito divino e da complexidade da existência.

Assim, à medida que a ciência amplia seus horizontes na busca por vida extraterrestre, nós, como seguidores da Fé Baha'í, nos alinhamos a essa busca por conhecimento e entendimento do universo que nos cerca. Isso nos leva a considerar que, como afirma o diretor Andrew Siemion, está prestes a escrever um novo capítulo na história da exploração espacial, um capítulo que pode muito bem ter paralelos nas revelações espirituais das Escrituras Baha'ís, pois ambos podem nos aproximar da compreensão da vastidão da criação de Deus.

Uma Reflexão através do Barro para a Humanidade

 


Por Guilherme Bitencourt

Segundo a mitologia suméria datada de 2000 a.C., emerge a figura de Enki Du, um ser selvagem esculpido das próprias entranhas da terra, que escolheu habitar harmoniosamente com as criaturas da floresta. Enki Du, à semelhança do icônico Adão bíblico, desfrutava de um dom peculiar: a comunicação fluente com os animais. Todavia, os caminhos do destino tomaram um novo rumo quando uma sacerdotisa do templo de Ishtar cruzou seu caminho, lançando um encanto irresistível. Após um encontro de paixão ardente, Enki Du perdeu sua habilidade de diálogo com as bestas e encontrou seu refúgio nas entranhas da cidade. Enquanto Adão bíblico foi expulso do idílico Jardim do Éden, Enki Du se despediu da exuberante floresta. Um, cedeu à tentação da fruta proibida, o outro, aos encantos de uma sacerdotisa. Esses paralelos, entretanto, são apenas a ponta do iceberg.

A mitologia dos antigos egípcios, cuja riqueza simbólica é inegável, também nos presenteia com referências ao barro e à argila, por meio da figura divina de Khnun, conhecido como Quenúbis na tradição grega. Khnun, o criador divino, esculpia seres de argila na roda do oleiro, concedendo-lhes vida ao inseri-los no seio materno.

As terras africanas ecoam a história do barro em suas mitologias. Entre os iorubás e os daomeanos, encontramos narrativas que ressoam com o mito de Nanã. Ela, a Senhora da Vida, associada às águas paradas e à lama dos pântanos, presente na criação do homem. Em sua jornada, Nanã mergulhou até o fundo de um lago e retirou a lama que, entregue a Oxalá, serviu como matéria-prima para a moldagem da humanidade. Assim, o sopro de Olorum infundiu a vida naquele que fora esculpido do barro.

No panteão grego, surge o cativante mito de Prometeu. Os irmãos Prometeu e Epimeteu, incumbidos por Zeus de modelar os seres vivos e o homem a partir do barro, desencadeiam uma revolução ao roubar o fogo do Olimpo e entregá-lo aos homens. O gesto audacioso de Prometeu conferiu à humanidade superioridade sobre os outros seres vivos. Contudo, esse ato não passou despercebido aos olhos de Zeus, que o condenou a um suplício incessante, amarrando-o a uma rocha e expondo seu fígado para ser diariamente devorado por uma águia.

A leitura dessas narrativas mitológicas, provenientes de diversas culturas e crenças, revela uma conexão profunda, ainda que simbólica, com a criação a partir do barro. O entendimento precisa transcender a interpretação literal para abraçar o simbolismo inerente a essas histórias. O eminente psicólogo Carl Gustav Jung, em sua obra "Arquétipos do Inconsciente Coletivo," explora o simbolismo como uma chave para a compreensão:

"O homem primitivo não busca explicações objetivas do óbvio; em vez disso, sua alma inconsciente anseia por interpretar experiências sensoriais externas como eventos da alma. Para o primitivo, a observação do nascer e do pôr do sol não é meramente um fenômeno natural, mas um evento espiritual, onde o Sol encarna o destino de um deus ou herói que reside, em última instância, na alma humana."

Jung argumenta que essa projeção persistiu ao longo dos milênios e só recentemente começou a se desconectar de suas origens externas. Assim, as parábolas foram adotadas como veículos de ensinamento, como exemplificado por Jesus. Segundo a Bíblia, quando questionado por seus discípulos sobre o uso de parábolas, Jesus respondeu:

"Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem." 

 Mateus 13:11-13

A explicação, segundo alguns comentaristas bíblicos, é que o estado espiritual do povo naquela época tornava obscura sua fé, e as parábolas facilitavam a compreensão das verdades espirituais. Isso está em harmonia com a observação de Jung sobre o homem primitivo, que não buscava explicações objetivas, mas sim interpretações simbólicas.

Mencionando Jesus e os judeus, não podemos ignorar o ponto de vista judaico sobre interpretações simbólicas. Moshé Ben Maimon, também conhecido como Maimônides, explica que, apesar da importância da criação conforme o Antigo Testamento, nossa capacidade de compreender tais conceitos é limitada. Em suas palavras:

"Por outro lado, a questão da Criação é muito importante, por outro lado, nossa capacidade de entender tais conceitos é muito limitada. (...) Foi descrito em metáforas, para que as massas pudessem entender a Criação de acordo com a sua capacidade mental, enquanto os cultos entenderiam de uma maneira diferente."

O renomado Rabino Abraham Ibn Ezrah complementa essa ideia, afirmando:

"Se houver algo na Torá (Antigo Testamento) que contradiz a razão (...) então, aqui, devemos procurar a solução numa interpretação figurativa..."

Ambos os rabinos reconhecem a necessidade e a importância da interpretação figurativa, semelhante ao exemplo de Jesus, que transmitia a Revelação em forma de parábolas para que as massas pudessem compreender.

No tocante ao Islã, o Alcorão também menciona a criação de Adão a partir do barro, mas sob uma perspectiva simbólica. Diferentemente de verso corânico que menciona a criação de todos os seres vivos a partir da água:

"Deus criou todas as criaturas [vivas] da água, e delas são as que se movem sobre as barrigas, e delas são as que andam sobre duas pernas, e delas são as que andam em quatro [...]." 

 Alcorão 24:45

Essa visão encontra eco na ciência moderna, onde se reconhece que a vida na Terra se originou da água, respaldada por teorias como a do cientista soviético Alexander Oparin e o biólogo inglês J.B.S Haldane.

Portanto, a compreensão dessas histórias como simbólicas, e não literais, é fundamental para reconciliar as crenças religiosas com o conhecimento científico. Como afirma Baha'u'lláh, o fundador da Fé Bahá'í:

"Sabe tu, verdadeiramente, que o propósito fundamental de todos esses termos simbólicos e alusões abstrusas que emanam dos Reveladores da santa Causa de Deus, é a provação dos povos do mundo; para que, deste modo, o terreno dos corações puros e iluminados se distinga do solo estéril e perecedor."

   Kitab-I-Iqan, pág.34

Assim, a interpretação simbólica é uma ferramenta crucial para compreender os ensinamentos religiosos e reconciliá-los com os avanços da ciência. Ao explorar o simbolismo nas narrativas mitológicas e religiosas, podemos vislumbrar um rico vitral de sabedoria que transcende as fronteiras culturais e temporais.

Alimentos e Agricultura

 


Folhetos de Warwick

Por Warwick Bahá'í Bookshop 2001

 

A Importância da Agricultura

"A base fundamental da comunidade é a agricultura."

Afirma claramente nas escrituras bahá'ís que a agricultura é a indústria mais importante. Essa verdade básica, que muitas vezes é esquecida, é óbvia porque, sem comida suficiente, morreríamos de fome. Menos óbvio para quem faz parte de uma civilização industrial, é o fato de ser a base fundamental da economia de um país.

"O comércio, a indústria, a agricultura e os assuntos gerais do país estão todos intimamente ligados. Se um deles sofre um abuso, o prejuízo atinge a massa."

"Atenção especial deve ser dada à agricultura ... inquestionavelmente ela precede as outras."

Um exemplo simples é a conexão entre a agricultura e o turismo. As práticas agrícolas afetam a atratividade da paisagem e, portanto, encorajam ou desencorajam os visitantes.

Se a economia da agricultura for equilibrada e bem-sucedida, o resto virá.

 

Avanços agrícolas

A habilidade e o cuidado do fazendeiro e do horticultor resultam em melhorias:

"Um grão de trigo, quando cultivado pelo fazendeiro, renderá toda uma colheita, e uma semente, pelos cuidados do jardineiro, crescerá em uma grande árvore."

"Privadas de cultivo, as encostas das montanhas seriam selvas e florestas sem árvores frutíferas. Os jardins produzem frutos e flores em proporção ao cuidado e cultivo que o jardineiro lhes dá."

Abdu'l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh, o Fundador da Fé Bahá'í, escreveu em 1912:

"Os métodos agrícolas dos antigos bastariam no século vinte? O transporte nas eras anteriores era restrito ao transporte por animais. Como ele supriria as necessidades humanas hoje? Se os meios de transporte não tivessem sido transformados, os abundantes milhões agora sobre a terra morreriam de fome ... Como grandes cidades como Londres e Nova York poderiam subsistir se dependessem de antigos meios de transporte? "

Os métodos da agricultura devem progredir, como qualquer outra ciência, à medida que o conhecimento aumenta, mas as práticas ainda devem funcionar em harmonia com a natureza e os sistemas ecológicos:

"Em todos os assuntos, a moderação é desejável. Se uma coisa for levada a excessos, será uma fonte de mal."


A base da boa saúde

Os bahá'ís acreditam que a causa imediata da doença é um desequilíbrio nas substâncias componentes do corpo, o que permite que a doença se instale. A cura é, portanto, possível comendo os alimentos corretos a fim de restabelecer o equilíbrio. Conclui-se também que os alimentos precisam ser puros, saudáveis ​​e equilibrados em primeiro lugar para não introduzir doenças ou permitir que elas se desenvolvam. Isso significa que os métodos de agricultura são de importância crucial. Tendo em mente a citação acima sobre moderação, os agricultores que se afastam muito dos processos naturais podendo causar efeitos colaterais indesejados. Por exemplo, a produção de novas estirpes de plantas por modificação genética ou por melhoramento seletivo, embora ganhe algumas vantagens a curto prazo, pode perder outras qualidades ou elementos nutritivos que são mais importantes a longo prazo.

Algumas outras causas de preocupação podem ser o uso regular de fertilizantes químicos ou pesticidas, a alimentação do gado com produtos que não fariam naturalmente parte de sua dieta e o uso rotineiro de antibióticos para o gado.

 

Bondade para com os animais

Embora os bahá'ís não sejam proibidos de comer carne, a bondade para com os animais é muito enfatizada:

"... não são apenas seus semelhantes que os amados de Deus devem tratar com misericórdia e compaixão, mas devem mostrar a maior bondade amorosa para com cada criatura vivente."

Isso impediria práticas como criação em bateria, criação de vitela e outros métodos intensivos que causam sofrimento ao gado.

Além disso, os escritos Bahá'ís afirmam que:

“A comida do futuro serão frutas e grãos. Chegará o tempo em que a carne não será mais comida” nosso alimento natural é aquele que cresce da terra. As pessoas irão gradualmente se desenvolver até a condição deste alimento natural."

Portanto, os bahá'ís esperam que a agricultura mude gradualmente para somente agricultura arável, usando muito menos terra do que a pecuária para fornecer a mesma quantidade de alimento.

 

Segurança financeira

Um problema subjacente à economia agrícola é a mudança contínua na sorte dos agricultores, dependendo das forças do mercado, clima e outros fatores. Para ajudar a lidar com esta situação, as escrituras Bahá'ís especificam um fundo para a aldeia, conhecido como armazém. Este é um modelo baseado em uma comunidade agrícola de aldeia, mas os princípios também podem ser estendidos a cidades e vilas:

"Para resolver este problema, devemos começar com o fazendeiro ... Em cada aldeia deve ser estabelecido um armazém geral que terá uma série de receitas ..."

A maior parte das receitas é baseada no uso da terra. Um é um imposto gradativo sobre os agricultores que têm lucro, outro é uma porcentagem dos lucros do trabalho de mineração ou extração. Aqueles que não trabalham na terra também pagarão uma porcentagem de sua renda excedente. Os curadores locais pagarão com esse depósito para os necessitados, incluindo fazendeiros durante os anos de vacas magras.

Em essência, esse depósito financeiro é muito diferente dos arranjos atuais. É um sistema permanente e local que enfatiza a importância fundamental de uma economia agrícola de sucesso.

Este sistema também operará em nível regional e nacional. Qualquer excedente do depósito local seria enviado para um fundo central, para uso em áreas menos afortunadas. Da mesma forma, a área local receberia ajuda desse fundo central, caso fosse necessário.

 

O futuro

"Esforce-se tanto quanto possível para se tornar proficiente na ciência da agricultura."

Os bahá'ís acreditam que a agricultura é de suma importância. Seus efeitos na saúde da população, no meio ambiente e na economia de uma área são incomensuráveis. Como todo empreendimento humano, ele deve ser perseguido com elevados valores éticos, como um serviço à humanidade. Os agricultores merecem respeito, ajuda e orientação científica sobre a melhor maneira de produzir alimentos saudáveis ​​ou safras comerciais benéficas para o mercado.

Os bahá'ís preveem um futuro em que a paisagem terá mudado à medida que muito menos animais são criados, a manutenção de um ambiente equilibrado e saudável é fundamental, a economia da agricultura é dominada e a população em geral desfruta de uma saúde muito melhor.

Jesus Cristo nas Escrituras Bahá'ís

 

 


Por Robert Stockman

Publicado na Bahá'í Studies Review, 2: 1
London: Association for Baha'i Studies English-Speaking Europe, 1992

Os estudos bíblicos modernos têm mostrado que é difícil determinar quem foi Jesus e quais foram seus ensinamentos. A primeira geração de cristãos não tinha necessariamente consciência da importância de preservar a história e, portanto, não fez um esforço para preservar a vida do Jesus histórico com precisão; e os evangelhos foram escritos pela segunda geração de cristãos em grego, não no aramaico que Jesus usou. Entre os cristãos que aceitam estudos bíblicos acadêmicos, há uma variedade de pontos de vista sobre a natureza de Jesus e Sua missão. Visto que nem todos os cristãos aceitam tal erudição, as várias visões tradicionais de Jesus também permanecem importantes para milhões de cristãos. Assim, entre os cristãos, existe uma ampla gama de pontos de vista sobre Jesus Cristo. Geralmente eles se enquadram em um espectro: à direita está uma leitura literal da Escritura que assume sua completa exatidão histórica; à esquerda está uma abordagem totalmente cética que questiona a exatidão histórica de quase todas as passagens bíblicas.

Os cristãos não são as únicas pessoas com uma concepção da natureza e missão de Jesus Cristo; os escritos sagrados da Fé Bahá'í também oferecem uma perspectiva sobre Ele. Portanto, é uma questão natural e inevitável perguntar se a visão bahá'í de Jesus se enquadra no espectro das visões cristãs e, em caso afirmativo, onde? Este artigo pode oferecer apenas algumas ideias preliminares sobre o assunto. Deve-se primeiro considerar os termos que bahá'ís e cristãos usam para descrever Jesus. Alguns cristãos entendem que Cristo é o próprio Deus. Outras descrições que eles usam são 'Filho de Deus,' Filho do Homem, 'Senhor’,'Salvador’ e 'Encarnação de Deus’. Outra abordagem cristã importante para entender Jesus, que não está no Novo Testamento, mas é uma visão antiga, é a Trindade. A Fé Bahá'í usa descritivos diferentes para Jesus, como 'Manifestação de Deus’ e 'Espírito de Deus’. O que significam os termos bahá'ís? Qual é a compreensão bahá'í dos termos cristãos?

Bahá’u’lláh descreve Jesus Cristo, Moisés, Abraão, Muhammad, Zoroastro, o Báb e a si mesmo como Manifestantes de Deus. [2] Para compreender o conceito Bahái de Manifestação, deve-se também compreender os conceitos Bahái de Deus, criação e humanidade. Isso ocorre porque Bahá'u'lláh diz que os Manifestantes de Deus têm uma posição dupla; um é a estação de 'pura abstração e unidade essencial, não apenas uns com os outros, mas também com Deus; a segunda é a posição de distinção, e pertence ao mundo da criação e às suas limitações’ (Gleanings 51, 52). Assim, os Manifestantes são pontes entre um Deus perfeito, inefável e transcendente, por um lado, e a humanidade e o mundo físico, por outro. O Cristianismo tradicional vê a posição de Jesus de maneira semelhante, pois Jesus não pode salvar a humanidade a menos que seja parte da humanidade e de Deus simultaneamente.

Bahá'u'lláh descreve a natureza de Deus enfatizando sua transcendência. A essência mais íntima de Deus está além de qualquer coisa que a humanidade possa compreender e experimentar, porque somos limitados e Deus é infinito; nós somos criaturas e Deus é o Criador (Gleanings 151, 193). Como 'Abdul-Bahá explica, a diferença entre Deus e a humanidade é como a diferença entre um pintor e uma pintura; assim como uma pintura é incapaz de compreender o pintor, também somos limitados em nossa capacidade de compreender nosso Criador (Resposta a Algumas Perguntas  5). Isso não nega a realidade da experiência mística; antes, afirma que por mais intensamente que um indivíduo possa experimentar o amor de Deus, Deus é capaz de amar essa pessoa ainda mais intensamente; tão intensamente que a frágil alma humana seria totalmente destruída pelo poder do amor. É neste sentido que as escrituras baha’ís enfatizam fortemente a transcendência de Deus.

As escrituras bahá'ís acrescentam, entretanto, que embora a essência mais íntima de Deus seja santificada além de nosso alcance, os humanos podem saber algo sobre Deus; isso ocorre porque Deus escolhe se manifestar por meio de atributos, como amor, conhecimento, compaixão, justiça e misericórdia. Bahá'u'lláh, em uma oração, diz 'Testifico que foste santificado acima de todos os atributos e santo acima de todos os nomes’ (Orações Bahá'ís 12), indicando que mesmo os atributos de Deus não expressam plenamente a essência íntima de Deus. [3]

O equivalente cristão ao conceito bahá'í de Manifestação é o conceito de encarnação. A palavra encarnar significa 'incorporar na carne ou assumir’, ou existir em, uma forma corporal (especialmente humana) (Oxford English Dictionary ). Do ponto de vista bahá'í, a questão importante a respeito do assunto da encarnação é: o que Jesus encarnou? Os bahá'ís podem certamente dizer que Jesus encarnou os atributos de Deus, no sentido de que em Jesus os atributos de Deus foram perfeitamente refletidos e expressos. [4] As escrituras bahá'ís, entretanto, rejeitam a crença de que a essência inefável da Divindade sempre esteve perfeita e completamente contida em um único corpo humano, porque as escrituras bahá'ís enfatizam a onipresença e transcendência da essência de Deus.

Bahá'u'lláh define a criação e a humanidade em detalhes consideráveis. Ele diz que sobre 'cada coisa criada Ele [Deus] derramou a luz de um de Seus nomes ( Gleanings, 65). Em outras palavras, tudo reflete um atributo de Deus; assim, Baháu'lláh endossa uma importante visão do misticismo da natureza. Bahá'u'lláh acrescenta que na alma humana, entretanto, Deus 'concentrou o brilho de todos os Seus nomes e atributos, e os tornou um espelho de Seu próprio Ser' ( Gleanings 65). Assim, a alma humana contém todos os atributos de Deus em forma potencial (Kitáb-i-Íqán 101) e, nesse sentido, estamos todos ligados a Deus e expressões de Deus (embora estejamos separados da essência mais íntima de Deus).

Bahá'u'lláh afirma que a principal ponte entre Deus e toda a criação é o Manifestante de Deus; indivíduos nos quais todos os atributos de Deus existem não apenas potencialmente, mas nos quais todos eles estão perfeitamente expressos. As manifestações são porta-vozes de Deus; os exemplos das qualidades de Deus; eles são vice-regentes de Deus na terra. Uma analogia para os Manifestantes encontrados nos escritos Bahá'ís ( Kitáb-i-Íqán 79, 142; Gleanings 74; Algumas Perguntas Respondidas 147-48; Promulgação da Paz Universal114-15) é que eles são como espelhos perfeitos, refletindo a luz do sol tão fielmente que a imagem do sol, vista em tal espelho, é indistinguível do sol no céu. Os seres humanos comuns, por mais que pulam os espelhos de suas próprias almas, nunca podem se tornar espelhos perfeitos; e a natureza também, por mais que reflita a beleza e magnificência de Deus, permanece um espelho imperfeito. Para ver Deus verdadeiramente, precisamos nos voltar para os Manifestantes. É interessante notar que a analogia do espelho não era desconhecida dos primeiros cristãos; o grande teólogo Orígenes (185-254 EC), citando o Livro da Sabedoria, chamou Cristo de 'o espelho imaculado' das obras de Deus (Orígenes, Sobre os Primeiros Princípios 26).

Dois termos filosóficos podem ser úteis para esclarecer a dupla estação das Manifestações que Bahá'u'lláh descreve. Uma é a ontologia, 'a ciência ou estudo do ser' (Oxford English Dictionary). Ontologia pertence à natureza ou essência das coisas. O outro termo é epistemologia, 'a teoria ou ciência do método ou base do conhecimento' (Oxford English Dictionary). A epistemologia diz respeito ao que podemos saber sobre as coisas. O que podemos saber sobre uma coisa não é necessariamente idêntico à própria coisa.

Pode-se argumentar que Bahá'u'lláh está afirmando que epistemologicamente os Manifestantes são Deus, pois são a personificação perfeita de tudo o que podemos saber sobre Deus; masontologicamente, eles não são Deus, pois não são idênticos à essência de Deus. Talvez seja este o significado das palavras atribuídas a Jesus no evangelho de João: 'Se me tivesses conhecido, também terias conhecido o meu Pai' (João 14: 7) e 'quem me viu, viu o Pai’ ( João 14: 9).

Bahá'u'lláh usa o conceito da dupla estação para explicar afirmações aparentemente contraditórias no Alcorão e no hadith sobre Muhammad:

A primeira estação, que está relacionada com Sua [os Manifestantes] realidade mais íntima, o representa como Aquele cuja voz é a voz do próprio Deus. A isso testemunhou a tradição: 'Múltipla e misteriosa é a minha relação com Deus. Eu sou Ele, Ele próprio, e Ele sou Eu, Eu próprio, exceto que eu sou o que sou’, e Ele é o que é. E da mesma maneira, as palavras: 'Levanta-te, ó Muhammad, pois eis, o Amante e o Bem-Amado se unem, se tornam um só em Ti.’ Ele diz de maneira semelhante: “Não há distinção alguma entre Ti [Deus] e Eles [os Manifestantes], exceto que Eles são Teus servos. A segunda estação é a estação humana, exemplificada pelos seguintes versos: “Eu sou apenas um homem como tu. 'Louvado seja meu Senhor! Serei eu mais que um homem, um apóstolo?” (Gleanings 66-67).

O Novo Testamento, da mesma forma, contém declarações onde Jesus se descreve como Deus, e outras onde Ele faz uma distinção entre Ele mesmo e Deus. Por exemplo, 'Eu e o Pai somos um (João 10:30); e 'o Pai está em mim e eu no Pai (João 1038); mas, por outro lado, 'o Pai é maior do que eu (João 14:28)e 'Por que você me chama de bom? Ninguém é bom, exceto Deus’ (Marcos 10:18; Lucas 18:19). Essas afirmações não se contradizem, mas são complementares se se assumir que afirmam uma unidade epistemológica com Deus, mas uma separação ontológica da Essência Incognoscível.

O conceito cristão da Trindade surgiu da necessidade de explicar declarações como essas. Os primeiros cristãos tendiam a ser "binitários", isto é, eles enfatizavam o Pai e o Filho. A terceira pessoa da Trindade foi adicionada por causa da experiência do Espírito na adoração cristã e para explicar muitas doxologias e expressões usadas na adoração que incluíam o Espírito Santo, como a fórmula batismal em Mat. 28:19, 'Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.’ No entanto, a fórmula batismal originalmente não pretendia ser uma declaração trinitária. Nem padronizou os pontos de vista dos cristãos; Inácio, um bispo proeminente de segunda geração (falecido em 115 EC) usou várias fórmulas em seus escritos, como '[5] Tertuliano, o primeiro grande teólogo latino, cunhou a palavra Trindade por volta do ano 200 EC; a doutrina atingiu sua forma tradicional por volta de 325 DC [6]

Em sua forma mais literal - que Deus consiste em três partes separadas ou 'pessoas, um Pai, Filho e Espírito Santo - a Trindade contradiz a visão Bahái de que Deus consiste em uma essência única, transcendente e incognoscível. Mas mesmo uma concepção literal da Trindade pode ser relacionada ao conceito Bahái de Deus. Por exemplo, pode-se identificar a essência transcendente e incognoscível de Deus como a parte Pai da Trindade. O Filho e o Espírito Santo podem ser vistos como manifestações da essência e, portanto, são equivalentes aos atributos de Deus. 'Abdul-Bahá, usando a analogia do espelho perfeito mencionado anteriormente, endossa esta abordagem:

Se dissermos, pois, que vimos o Sol em dois espelhos, sendo um destes espelhos o Cristo e o outro o Espírito Santo - isto é, que vimos três sóis,  estando um no céu e os outros dois na terra, diremos a verdade. E se dissermos que há somente um Sol, sem companheiro ou igual, estaremos ainda dizendo a verdade. (Algumas perguntas respondidas 114)

Esta é uma explicação bahá'í do simbolismo da Trindade. Existem outros, pois o conceito pode ser entendido de muitas maneiras diferentes. Quando alguém examina o conceito da Trindade, historicamente, descobre que um entendimento literal não foi originalmente pretendido. A palavra 'pessoa, há dois mil anos, nunca significou um ser humano individual, como hoje. Acredita-se que a palavra venha do latim per, por meio de esona, som; sua etimologia refere-se às máscaras que os atores costumavam usar nas peças, que continham porta-vozes para amplificar a voz do ator. Quando o ator desejava representar um personagem diferente, ele colocava uma máscara ou persona diferente. Assim, o conceito de 'pessoa na Trindade também pode ser traduzido para o inglês moderno por palavras como 'personalidade’, 'personagem,' rosto’ ou 'expressão' em vez de 'pessoa' (Tillich, A History of Christian Thought 46-47). A ideia original dos teólogos gregos era que Deus tinha múltiplas formas de expressão, não múltiplas individualidades, e que essas múltiplas formas eram, no entanto, uma.

Quando confrontado com o problema de definir as três persona sem termos precisos, os pensadores cristãos se voltaram para a teologia por meio de descrição e analogia. Um bom exemplo vem de Gregório de Nazianzo (329-391 EC): 'O Pai é o gerador e o emissor; sem paixão, é claro, e sem referência ao tempo, e não de forma corpórea. O Filho é o gerado e o Espírito Santo é a emissão; pois não sei como isso pode ser expresso em termos que excluem totalmente as coisas visíveis’ (The Third Theological Oration - On the Son, in Hardy and Richardson, Christology of the Later Fathers 161). Em outro lugar, usando a analogia da luz, Gregório diz que Deus pode ser compreendido 'fora da luz’ [o Pai], como 'a própria luz’ [o Filho], e 'na luz’ [o Espírito] (Quinta Oração Teológica - Sobre o Espírito, em Hardy e Richardson,195). [[7]

É interessante notar que 'Abdul-Bahá também adotou essa abordagem analógica para descrever a Trindade. Em uma Epístola que Ele revelou a um bahá'í americano em 1900, Ele disse:

Mas quanto à questão da Trindade, saiba, ó advogador de Deus, que em cada um dos ciclos [dispensações de uma Manifestação]...há necessariamente três coisas, o Doador da Graça, e a Graça, e o Destinatário da Graça; a Fonte da Efulgência, e a Efulgência, e o Destinatário da Efulgência; o Iluminador e a Iluminação e o Iluminado. Veja o ciclo Mosaico - o Senhor, Moisés e o Fogo (isto é, a Sarça Ardente), o intermediário; e no ciclo messiânico, o Pai e o Filho, e o Espírito Santo o intermediário; e no ciclo Muhammudiano [sic], o Senhor e o Apóstolo (ou Mensageiro, Muhammad) e Gabriel (pois, como os Muhammadianos acreditam, Gabriel trouxe a Revelação de Deus para Muhammad), o intermediário. Olhe para o Sol e seus raios e o calor que resulta de seus raios: os raios e o calor são apenas dois efeitos do Sol, mas inseparáveis ​​dele e enviados por ele; no entanto, o Sol é um em sua essência, único em sua identidade real, único em seus atributos, nem é possível que algo se assemelhe a ele. Tal é a Essência da Verdade concernente à Unidade, a verdadeira doutrina da Singularidade, a realidade não diluída quanto ao (Divino) Santuário. ('Abdul-Bahá, Tablets de Abdul Beha Abbas 9.) [8]

Além de discutir Jesus Cristo em termos gerais e em termos da Trindade, as escrituras bahá'ís discutem o próprio Jesus. A morte de Jesus na cruz é reconhecida como uma expiação pela humanidade (God Passes By, 188; Tablets of 'Abdu'l-Bahá Abbas, 543). Bahá'u'lláh descreve o impacto de Jesus no mundo em termos muito específicos:

Sabe tu que, quando o Filho do Homem rendeu a Deus Seu alento, a criação inteira chorou com grande pranto. Por Ele se haver sacrificado, entretanto, infundiu-se uma nova capacidade em todas as coisas criadas. Suas evidências, segundo se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A mais profunda sabedoria que os sábios têm pronunciado, a mais completa erudição que qualquer mente tenha desvelado, as artes produzidas pelas mãos mais hábeis, a influência exercida pelo mais potente dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador que emana de Seu Espírito transcendente, predominante e esplendoroso...Ele foi Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com a face irradiante de luz, a Ele se haja volvido.  (Gleanings 86)

Bahá'u'lláh afirma que, embora todos os Manifestantes de Deus mantenham uma posição espiritual igual, eles não são iguais em termos de intensidade e potência de suas revelações (Kitáb-i-Íqán 104). A citação acima sugere que Jesus Cristo, o Manifestante que fundou o que é hoje a maior comunidade religiosa do planeta, teve um impacto único na história humana; um impacto que talvez tenha sido maior do que qualquer outra Manifestação antes de Bahá'u'lláh.

 

Uma visão bahá'í dos títulos de Jesus

As escrituras bahá'ís não discutem todos os títulos usados ​​pelos Cristãos para Jesus, mas eles implicam abordagens que os bahá'ís podem seguir para os títulos que não são discutidos. Um elemento chave na abordagem bahá'í é a singularidade de cada Manifestação; Bahá'u'lláh diz que cada um tem 'uma personalidade distinta, uma posição definitivamente prescrita, uma revelação predestinada e limitações especialmente designadas’ (Gleanings 52). Assim, os bahá'ís não precisam reconhecer a validade de, digamos, o título 'Filho do Homem, atribuindo-o a Muhammad, Bahá'u'lláh ou outro Manifestante. Jesus pode ser o Filho do Homem; Muhammad pode ser o Selo dos Profetas; Bahá'u'lláh pode ser a Glória de Deus; cada um é diferente, mas nenhum é melhor do que o outro por causa de Seu título único.

Na passagem citada anteriormente, Baháu'lláh parece afirmar especificamente o título 'Filho do Homem (ou' Filho da Humanidade, como alguns teólogos cristãos modernos preferem traduzir) como referindo-se a Jesus. Baháu'lláh não diz o que o termo significa, e a tradição cristã tem sido bastante vaga sobre o significado dos termos. Em última análise, vem do Livro de Daniel, onde se refere ao Messias, e é frequentemente usado nos Evangelhos como um título de Jesus. Presumivelmente, o título simboliza a humanidade perfeita que Jesus representou.

Embora as escrituras bahá'ís não digam nada sobre o título 'Filho de Deus’ (ou ‘Filho Unigênito’ de Deus, [João 3:16]), há muito que pode ser dito sobre isso de uma perspectiva bahá'í. 'Filho de Deus’ é um título de Jesus extremamente importante para os cristãos, tanto que na mente de muitos cristãos ‘Filho de Deus’ define a relação de Jesus com Seu pai. Mas muitas vezes os cristãos não pensam sobre o significado simbólico do título; na verdade, muitos parecem não saber que o título é simbólico.

O que significa o termo 'Filho'? Normalmente, a palavra tem um significado biológico simples, mas esse significado é o mesmo que não se aplica à relação entre Deus e Jesus, pois Deus não tem material genético para conferir a Jesus, nem Deus tem um corpo com o qual pudesse unir-se a Maria para gerar um filho. A teologia cristã nunca quis que o termo fosse entendido literalmente; como a citação acima de Gregório de Nazianzo enfatiza, Deus gerou Cristo 'sem paixão, é claro, e sem referência ao tempo, e não de uma maneira corpórea' ('A Terceira Oração Teológica - Sobre o Filho' 161). O Alcorão ecoa o reconhecimento de Gregório da transcendência de Deus quando diz: ‘sabei que Deus é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho.’(Alcorão 4:171).

Consequentemente, a palavra 'Filho' deve ser entendida em um sentido metafórico ou simbólico; o mesmo é verdade para o verbo 'gerado' quando aplicado a Jesus. Um possível significado de Filho, rejeitado cedo pela corrente principal da teologia cristã, era a interpretação 'adocionista'; que Jesus era um homem comum, 'adotado' por Deus como Seu Filho. As escrituras bahá'ís também parecem rejeitar essa abordagem, visto que não veem os Manifestantes de Deus como seres humanos comuns; antes, os escritos bahá'ís indicam que as almas dos Manifestantes são preexistentes, em contraste com os seres humanos comuns, cujas almas passam a existir no momento da concepção. As manifestações são de fato criações únicas de Deus, como a frase "unigênito" tenta transmitir; descreve Jesus '

Outra interpretação simbólica do termo 'Filho' seria argumentar que Jesus era o Filho 'espiritual' de Deus. Vários intérpretes adotaram essa abordagem. Pode-se dizer que todos os humanos, inclusive Jesus, são 'filhos' de Deus, ou seja, todos foram criados por Deus. Isso é verdade, mas enfraquece a singularidade da aplicação do título a Cristo, provavelmente desnecessariamente, e enfraquece a distinção que bahá'í faria entre Jesus Cristo e a criação.

Outra abordagem seria argumentar que o título se refere ao fato de que Jesus, como Manifestante de Deus, exemplificou a relação entre os humanos e Deus de uma forma única e perfeita; Jesus era o verdadeiro e perfeito 'Filho' em Sua obediência, Sua servidão a Deus e Seu amor por Seu Pai. Nesse sentido, todos os Manifestantes de Deus são 'Filhos' de Deus. Outra abordagem seria argumentar que, embora todas as Manifestações exemplifiquem a filiação perfeita, era uma característica particular e central da missão de Jesus Cristo exemplificar tal relacionamento.

Prefiro a última abordagem por vários motivos. Primeiro, ele transmite a ênfase central para a missão de Jesus, especialmente a ênfase no amor. Nos dias politeístas de Abraão, o foco da revelação tinha que ser o fato de que apenas um Deus existia; no tempo de Moisés, o foco estava em um relacionamento jurídico simples com Deus, baseado em leis; na época de Jesus, um relacionamento mais profundo, mais pessoal e mais amoroso poderia ser enfatizado. Subsequentemente, Muhammad e Bahá'u'lláh poderiam tentar equilibrar a dimensão pessoal da religião - o relacionamento do indivíduo com Deus - com a dimensão social, o estabelecimento de leis para a construção de uma sociedade baseada na religião. Assim, a palavra 'Filiação' parece capturar uma dimensão significativa da mensagem de Jesus.

Em segundo lugar, historicamente 'Filho de Deus' foi aplicado apenas a Jesus; Bahá'u'lláh não reivindica o título para Si mesmo, nem o aplica a outras Manifestações. Assim, parece não haver razão para os bahá'ís aplicarem o título de uma maneira geral a todos os Manifestantes de Deus.

Terceiro, o título 'Filho dos Deus é um contraponto importante e adequado ao título 'Filho do Homem'; os dois juntos trazem a dupla posição de Jesus. Ambas as expressões usam o termo 'Filho' da mesma forma simbólica, para denotar a expressão perfeita de Jesus ou incorporação dos dois aspectos de Sua natureza.

Quarto, 'Filho de Deus' alude ao nascimento virginal de Jesus, um evento que os escritos bahá'ís validam como um evento histórico (Diretrizes do Guardião 39; Grandes esforços 68).

Salvador

O termo 'Salvador' é outro título de Jesus que os bahá'ís podem entender e aceitar. Em suas parábolas, Jesus deixa claro que a entrada no Reino de Deus depende de uma aceitação absoluta da vontade de Deus, aparentemente conforme ela é revelada por meio dEle. O apóstolo Paulo enfatizou a salvação pela fé em Cristo. Embora Bahá'u'lláh não use a palavra 'salvação', Ele discute um conceito semelhante:

O primeiro dever prescrito por Deus a Seus servos é o reconhecimento dAquele que é o Alvorecer de Sua Revelação e a Fonte de Suas leis, Aquele que representa a Deidade tanto no Reino de Sua Causa como no mundo da criação. Quem cumpre esse dever atinge todo o bem, e quem dele se priva conta-se entre os extraviados, mesmo que seja o autor de todos os atos retos. Cumpre a cada um que alcança esse mais sublime grau, esse ápice de transcendente glória, observar todos os mandamentos dAquele que é o Desejo do mundo. Esses deveres gêmeos são inseparáveis. Um não é aceitável sem o outro. Assim decretou Aquele que é o Manancial da inspiração divina. (Gleanings 330-31).

Bahá'u'lláh deixa claro que a aceitação do Manifestante de Deus - dois mil anos atrás, Jesus, e hoje o próprio Bahá'u'lláh - é crucial para o progresso espiritual de alguém, e tem precedência completa sobre as ações de alguém (aqui Ele concorda com a posição do apóstolo Paulo sobre a prioridade da fé sobre as obras [Romanos 3:28]). Bahá'u'lláh prossegue dizendo que a obediência aos ensinamentos - especialmente às leis - do Manifestante também é necessária. Isso é consistente com Jesus dando orientação sobre o divórcio (Mateus 5:32), e o lembrete de Paulo aos cristãos romanos de que, embora a fé tenha precedência sobre as obras, os cristãos devem cumprir a lei (Romanos 330)


Outra interpretação engenhosa, embora pessoal, do termo salvação foi oferecida por Thornton Chase, o primeiro bahá'í americano. Chase começou com a discussão de 'Abdu'l-Bahá sobre os cinco tipos de espírito. As plantas possuem o espírito vegetal, que consiste no poder de crescimento; os animais possuem o espírito animal, que inclui crescimento e percepção; os humanos possuem o espírito humano, que inclui crescimento, percepção e cognição. Acima desses três está o 'espírito celestial' ou o 'espírito de fé', que 'Abdu'l-Bahá chama de' o poder que torna o homem terreno celestial, e o homem imperfeito perfeito' (algumas perguntas respondidas, 144). Quinto é o Espírito Santo, 'o mediador entre Deus e Suas criaturas' (algumas perguntas respondidas, 145). Chase argumenta que quando uma pessoa adquire o quarto espírito (o espírito da fé) - o que ocorre quando alguém aceita a Palavra de Deus em seu coração e opera uma transformação em sua alma - então a pessoa experimentou a salvação. Isso, diz ele, é o que significa a frase 'deveis nascer de novo' [João 3: 7] (Chase, The Bahá'í Revelation 119-21).

Assim, os bahá'ís não alegariam que apenas Jesus ofereceu a salvação à humanidade; todos os Manifestantes transmitem salvação, por meio de suas palavras e de seu sacrifício. Nesse sentido, todas as Manifestações podem ser descritas como 'salvadores'. Os bahá'ís americanos frequentemente aplicam o título a Bahá'u'lláh em suas canções, embora as escrituras bahá'ís aparentemente não usem o título (para Jesus, Bahá'u'lláh ou qualquer outro Manifestante de Deus).

Os senhores

Cristãos frequentemente se referem a Jesus como o 'Senhor'. Bahá'u'lláh também aplica o título a Jesus, referindo-se a Ele como 'Senhor do visível e do invisível' ( Gleanings 57). 'Senhor' é um título não apenas para Jesus, mas para reis, nobres, mestres e outros. O termo kyrie ('Senhor') em grego tinha uma ampla gama de usos semelhantes. Os Bahá'ís referem-se a Bahá'u'lláh como seu 'Senhor', mas podem aplicar o termo a qualquer Manifestação de Deus.

Caminho, verdade e vida.

Os cristãos modernos às vezes usam passagens do Novo Testamento como títulos ou descrições de Jesus. Talvez o melhor exemplo seja João 14: 6, 'Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim '. Os Bahá’ís não rejeitariam esta passagem do Evangelho de João, mas eles a interpretariam de maneira diferente da maioria dos cristãos. Duas abordagens possíveis vêm à mente. Uma seria examinar a palavra 'eu'; a quem Jesus está se referindo? A Si mesmo, certamente, mas não poderia estar se referindo a todos os Manifestantes em geral, visto que, como Bahá'u'lláh explica, ‘uma das estações dos Manifestantes é 'pura abstração e unidade essencial' (Gleanings 51)? Assim, a declaração de Jesus nunca teria tido a intenção de excluir os outros Manifestantes, especialmente não a Si mesmo quando Ele voltou - isto é, na pessoa de Bahá'u'lláh. Um teólogo cristão, John Cobb, também reconheceu a ambiguidade do 'eu' e sugeriu que o 'eu' se refere não ao Jesus histórico, mas ao eterno logos manifestado em Jesus. [9] Em termos bahá'ís, Cobb está sugerindo que o 'eu' se refere ao Espírito Santo comum a todos os Manifestantes, ou à sua posição de unidade.

Também se pode examinar a palavra 'sou'. O verbo to be tem muitos usos - o Oxford English Dictionary lista vinte e quatro - alguns dos quais são normalmente distinguidos uns dos outros apenas pelo contexto. Um uso gramatical é o presente universal, que é usado para fazer afirmações que são sempre verdadeiras, como os 'triângulos têm três lados'. Outro uso se aplica ao presente, mas pode não se aplicar ao futuro também, como 'Eu sou jovem' ou 'Eu estou vivo'. Os cristãos geralmente entendem a declaração 'Eu sou o caminho, a verdade e a vida' como um presente universal, mas não poderia ser aplicado apenas a algum período de tempo no passado? Abraão não poderia ter sido o caminho, a verdade e a vida para os povos do Oriente Médio desde 2.000 AEC com respeito a língua inglesa se for aplicada na época de Moisés; então Moisés era o caminho, a verdade e a vida até o tempo de Jesus; então Jesus era o caminho, a verdade e a vida até a época de Muhammad; e assim por diante? Da mesma forma, Bahá'u'lláh é o caminho, a verdade e a vida até que seja substituído por outra Manifestação. (Gleanings 346).


Resumo

Em resumo, as escrituras bahá'ís não rejeitam a singularidade de Jesus Cristo; pelo contrário, elas respeitam, amam e enfatizam isso.

No entanto, elas procuram equilibrar essa singularidade, reconhecendo a singularidade de outros Manifestantes de Deus também. Esse equilíbrio é alcançado ao ver os Manifestantes como expressões perfeitas da vontade divina para as pessoas de seu lugar e tempo. Os Manifestantes trazem ensinamentos religiosos eternos e imutáveis ​​ao povo, bem como princípios designados para a sociedade à qual ministram. Assim, Jesus é visto pelos bahá'ís como divino, como o Filho do Homem e o Filho de Deus, e como o caminho, a verdade e a vida para o Seu mundo. Ironicamente, isso é mais do que muitos cristãos acreditam sobre Jesus. A visão bahá'í da estação de Jesus cai perto do meio do espectro de pontos de vista que os cristãos sustentam e afirmam compreender Jesus de uma forma que se ajusta ao nosso mundo moderno, pluralista e de mentalidade histórica.

 

TRABALHOS CITADOS

  • 'Abdu'l-Bahá. A Promulgação da Paz Universal: Palestras proferidas por 'Abdu'l-Bahá durante sua visita aos Estados Unidos e Canadá em 1912 . Compilado e editado por Howard MacNutt. 2d ed. Wilmette: Bahá'í Publishing Trust, 1982.
  • _____. Algumas perguntas respondidas. Compilado e traduzido por Laura Clifford Barney. 5ª ed. Wilmette: BaháY Publishing Trust, 1981.
  • _____. Tábuas de Abdul-Bahá Abbas . Volume 3. Chicago: Bahá'í Publishing Society, 1916.
  • _____. Tablets de Abdul Beha Abbas a Some American Believers no ano de 1900. Traduzido por Edward O. Browne. New York: New York Board of Counsel, 1901.
  • Bahá'u'lláh. Respirações dos Escritos de Bahá'u'lláh Traduzido por Shoghi Effendi. Rev. ed. Wilmette: Bahá'í Publishing Trust, 1976.
  • _____. O Kitáb-i-Íqán: O Livro da Certeza. Traduzido por Shoghi Effendi. 2d ed. Wilmette: Bahá'í Publishing Trust, 1950.
  • Bahá'u'lláh, o Báb e 'Abdu'l-Bahá. Orações Bahá'ís: Uma Seleção de Orações Reveladas por Bahá'u'lláh, o Báb e 'Abdu'l-Bahá. 2d ed. Wilmette: Bahá'í Publishing Trust, 1982.
  • Bornkamm, Gunther. Jesus de Nazaré. Nova York: Harper and Row, 1960.
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  • Chase, Thornton. A Revelação Bahá'í. Chicago: Bahá'í Publishing Society, 1910.
  • Cobb, John B. 'Dialogue' in Death or Dialogue ?: From the Age of Monologue to the Age of Dialogue. Londres: SCM Press, 1990.
  • Cole, Juan Ricardo. O Conceito de Manifestação nas Escrituras Bahá'ís. Bahá'í Studies, vol. 9. Ottawa: Association for Bahá'í Studies, 1982.
  • Hardy, Edward Rochie e Cyril C. Richardson, eds. 'Cristologia dos Padres posteriores' na Biblioteca de Clássicos Cristãos. Edição Ichthus. Filadélfia: Westminster Press, 1954.
  • Origem. Sobre os primeiros princípios. Traduzido por GW Butterworth. Gloucester, Mass .: Peter Smith, 1973.
  • Richardson, Cyril C. ed. e trans. Pais Cristãos Primitivos. Nova York: Macmillan, 1970.
  • Shoghi Effendi. Deus passa. Wilmette: Bahá'í Publishing Trust, 1944.
  • _____. Diretrizes do Guardião. Compilado por Gertrude Garrida. Nova Delhi: Bahá'í Publishing Trust, 1973.
  • _____. High Endeavors: Mensagens para o Alasca. Anchorage: Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Alasca, 1976.
  • Tillich, Paul. Uma história do pensamento cristão: de suas origens judaicas e helenísticas ao existencialismo. Nova York: Simon and Schuster, 1967.


Notas finais

  1. Muitos estudos foram feitos sobre esse problema; entre os melhores está Jesus de Nazaré, de Gunther Bomkamm (para informações bibliográficas completas sobre esta obra, e outras citadas neste artigo, consulte a bibliografia). O Silêncio de Jesus de James Breech:
  2. A Voz Autêntica do Homem Histórico é uma tentativa de analisar a mensagem teológica de Jesus com base nas parábolas que a maioria dos estudiosos reconhece como registros historicamente confiáveis ​​das palavras de Jesus.
  3. 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi respectivamente adicionaram Buda e Krishna a esta lista.
  4. É interessante notar que 'Abdu'l-Bahá se refere a alguns atributos como essenciais à natureza de Deus, como a pré-existência (Algumas Perguntas Respondidas 148-49). Mas quais atributos são essenciais? Parece que a definição da palavra Deus necessita que Deus seja todo-poderoso e onisciente; portanto, pode-se argumentar que essas são qualidades da essência mais íntima de Deus. Mas Deus pode escolher se quer ou não ser amoroso e compassivo, e permanecer Deus? É uma parte necessária da essência de Deus que Deus seja amoroso? Perguntas como essas aguardam o pensamento de filósofos e teólogos bahá'ís. Uma excelente base para o estudo deles foi lançada pelo Concept of Manifestation in the Bahá'í Writings de Juan Ricardo Cole .
  5. Veja Heb. 1: 3.
  6. Os escritos de Inácio estão disponíveis em Cyril C. Richardson, ed. e trad. Early Christian Fathers. .
  7. CE significa 'Era Comum' e é a substituição amplamente aceita para o termo AD (que significa wino domini, 'no ano do Senhor').
  8. Gregório de Nazianzo foi um dos três grandes teólogos gregos que, após o Concílio de Nicéia, definiu a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo em termos trinitários aceitáveis ​​para praticamente todos os cristãos. Ele é considerado um dos grandes pais da igreja grega e é altamente respeitado por todas as tradições cristãs.
  9. Nota: esta é uma tradução antiga e não foi verificada pelo Centro Mundial Bahá'í quanto à sua exatidão.
  10. 'É afirmado (por alguns cristãos), então, que o Verbo que está encarnado em Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida, e que ninguém vem ao Pai exceto por meio do Verbo. Isso não pode significar que o Verbo está presente e atuante apenas em Jesus, pois no prólogo do Evangelho se afirma que na Palavra que desde o princípio era a vida, que esta vida é também a verdadeira luz que ilumina a todos.” (Cobb, Diálogo 17)